O Resgate do Canto Coral

Por Joel Pereira

Tem-me preocupado bastante nos últimos tempos o desinteresse manifesto das novas gerações, principalmente os jovens, sobre o canto coral em nossas Igrejas.

Nas Igrejas evangélicas em geral, prima-se pela realização dos cultos que os fiéis promovem, tendo como motivação central a adoração ao Criador. Os cânticos de músicas sacras incluem-se entre os componentes do culto. Em tempos passados, eram muito usuais os hinos, assim chamados. Daí, cada denominação ter o seu hinário oficial. A Harpa Cristã, da Assembleia de Deus; o Cantor Cristão, transformado mais tarde no Hinário Para o Culto Cristão, dos batistas. Os congregacionais, com o Salmos e Hinos; os Hinos de Louvores e Súplicas a Deus, da Congregação Cristã do Brasil; o Hinário Luterano, das Igrejas Evangélicas Luteranas. Não faltavam os denominados corinhos, hoje classificados como cânticos contemporâneos. No entanto, a prevalência era sempre dos hinos.

Contávamos também com alguns hinários avulsos. Eram compêndios de músicas evangélicas selecionadas e eruditas, genuinamente sacras. Dentre eles, Melodias de Vitória e Coros Sacros. Este, exclusivamente para corais, uma obra prima de Arthur Lackchevitz, a quem o povo batista deve muito. Em certo momento, chegou a dirigir ao mesmo tempo vários corais de igrejas batistas, no Rio de Janeiro. No passado, o Coro Silas da Luz utilizava-se de várias músicas desse hinário.

A partir do final da década de 1970, a música evangélica começou a sofrer uma transformação vertiginosa, com forte influência nas Igrejas em geral. Dizem que tal fenômeno eclodiu com o aparecimento  do Rebanhão, aqui no Rio de Janeiro, uma banda com estilo de rock, voltado a temáticas cristãs. Essa banda fez enorme sucesso por vários anos, sendo a precursora do rock cristão e importante na introdução da música contemporânea. Nessa ocasião, outras rádios começaram a abrir oportunidades para programas evangélicos, até então restritos a uma só emissora – Rádio Copacabana.

O pastor Nilson Nobre era bastante cuidadoso, no que dizia respeito a apresentações de bandas e cantores de fora em nossa Igreja. Em ocasiões festivas, como congressos de jovens e de adolescentes, por exemplo, fazia uma apuração severa sobre quem seria o convidado, ou grupo escolhido.

O que se percebe, com nitidez, é que a preferência musical das igrejas evangélicas em geral nos dias presentes compreende uma questão cultural. Os jovens, atraídos por estilos musicais inovadores, vão assimilando as canções contemporâneas por serem de sua preferência. Com isso, os novos crentes que vão chegando perfilham o mesmo gosto. Por essa razão, constatamos que as novas gerações de crentes em nossas Igrejas não conhecem as canções de nosso hinário oficial; os hinos escritos com letras escorreitas, frutos de inspirações divinas. Que dizer das músicas desses hinos? Melodias lindíssimas, tocantes, que nos conduzem aos páramos celestiais, aproximando-nos dos céus.

O coro vem a ser um conjunto de cantores, que executa peças musicais em uníssono, ou em várias vozes, como soprano, contralto, tenor e baixo. A apresentação se dá com acompanhamento ou à capela. Os coros de Igrejas, pela natureza, adotam músicas sacras, mas há aqueles coros de instituições outras que apresentam músicas profanas.

A nossa Igreja sempre contou com um conjunto coral. Aliás, ele surgiu antes, em 28-06-1950, quando ainda éramos uma congregação, por iniciativa do saudoso diácono Ananias Nogueira. Na década de 1960 e nos anos seguintes, havia na Igreja dois corais de primeira grandeza: o principal e o coral da juventude. Tive o privilégio de participar de ambos, na voz tenor. Bem me lembro de Walfrides Santos e Roberto Nogueira, que ombreavam comigo. Como cantavam bem! O coro da Igreja participava dominicalmente da liturgia do culto da noite. O pastor não abria mão disso. Tive a felicidade inaudita de acompanhar o coral, como organista, durante muito tempo.

Naqueles idos, toda igreja batista possuía o seu coro. Era um componente importantíssimo, indispensável. O coro da IB de Neves, sob a regência de Elias Silva, era um dos melhores da região. A convite do Presidente da República, Juscelino Kubitschek, fez uma apresentação especial em Brasília, quando a cidade estava prestes a ser inaugurada. A irmã Orquídea de Oliveira integrava esse coral.

Com tristeza, verificamos que muitas Igrejas nos dias presentes não mais possuem os seus corais. O estilo de música não se vislumbra atrativo à juventude. Comprova essa realidade a composição do Coro Silas da Luz, de nossa Igreja. Em sua quase totalidade, somente de pessoas de mais idade.

Como todos sabem, as novas Igrejas que vêm surgindo no cenário evangélico não dispõem de corais e nem se interessam por uma música de qualidade. Pelo que sei, são os cânticos contemporâneos e os cantores profissionais em suas reuniões.

Louvável o esforço que vêm desenvolvendo a irmã Jacqueline Couto e a jovem Tatiane Dias, lutando para manter de pé os dois corais da Igreja: o Silas da Luz e o Jubileu. Que haja um despertamento no seio da membresia, com estratégias bem arquitetadas, para que os jovens e os novos irmãos possam se inclinar pelo canto coral, pela sua beleza e poder de suas músicas de chegar ao âmago dos corações, dando-lhes alegria espiritual e sublimidade aos anseios da alma.

Author: adm0152

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