O Prazer de Ver o Trem Passar

Por Joel Pereira

Como impressiona a infinidade de coisas que nos fazem diferentes uns dos outros, – e aqui nem estou levando em conta os traços fisionômicos, cor de pele ou de olhos, tipo corporal, etc, considerados para uma identificação individual. Prendo-me, em particular, ao gosto, prazer, satisfação, e tantas coisas mais, numa esteira infindável que vai me levar a ser desigual até mesmo de minha mãe, meu pai, de um irmão, aos quais me encontro ligado por vínculo biológico. Minha mãe, por exemplo, por não gostar, nunca bebeu leite, nunca comeu peixe, nunca comeu carne bovina, situação que não se deu com filho qualquer.

Dentro do raciocínio que se desenvolve, há muitas coisas que são prazerosas a certas pessoas, que lhes atraem os olhos, que lhes dão prazer. As mesmas coisas, porém, podem não despertar atrativo qualquer a outras pessoas, sem se falar mesmo que algumas chegam a ser avessas ao que se apresenta. Tenho um amigo que é torcedor ferrenho do Flamengo. Não perde um jogo de seu clube. Sempre que pode, vai ao Maracanã. Sua mulher, todavia, detesta futebol.

Mas, tudo o que foi visto até agora é unicamente para contar o interesse que algumas jovens tinham por ver o trem passar. Uma dessas meninas do passado, hoje, obviamente, com um pouco mais de idade, faz parte de nossa igreja, sendo bem conhecida. Mais adiante, citarei o seu nome. O fato que se começa a descrever é real, aconteceu num lugarejo do interior de Itaocara, chamado Laranjais, hoje 2º distrito daquele município do interior do Estado.

Não muito distante, ficava o Engenho Central, do Dr. Péricles Corrêa da Rocha, empresário talentoso e visionário, bem sucedido na fabricação de açúcar e álcool. Fundou no local uma verdadeira cidade particular, com linha férrea própria, tratamento de água, energia elétrica própria, hospital, farmácia, com grande extensão de terras ocupadas com o plantio de cana de açúcar.
Ver o trem passar… Em princípio, uma coisa tão simples, sem maior motivação, mesmo porque todo o dia o trem passava no mesmo lugarejo, parava na mesma estação, emitindo os mesmos sinais de chegada e saída. Mas, algumas jovens, possivelmente com seus 14, 15 ou 16 anos, moradoras ali, se preparavam em casa e se encontravam, saindo juntas, certamente felizes, sorridentes, e caminhavam até perto da estação. Evidentemente, já sabiam o horário de chegada do esperado trem. Bem posso imaginar as conversas, os papos daquelas meninas desprovidas certamente dos atrativos, do frenesi e do glamour que fervilham a vida da juventude nos dias de hoje.

E lá vem o trem, com os seus apitos bem característicos, dando sinal de que estava chegando. Diminui a velocidade, e vai parando bem devagar, lentamente. O chiado da máquina era resultante da pressão gerada pela caldeira, sendo o que impulsionava as alavancas e fazia movimentar as pesadas rodas de ferro. O que provocava toda a força era o vapor resultante da caldeira, aquecida pela fornalha à lenha.

Pelo que imagino, a história das meninas que iam ver o trem passar tenha se dado nos últimos anos da década de 1950. Cada qual com vestes simples, quem sabe umas com vestidos estampados, ou saia abaixo dos joelhos, é claro; blusas de mangas curtas, sem decote mais baixo. Calça comprida ou bermuda não fazia parte da indumentária feminina. Logo, não admitidas, de forma alguma, para mulher, além do mais tratando-se de meninas de famílias, decentes e recatadas. Assim era a cultura da época.

Como acontece, o trem não permanece muito tempo na estação; o suficiente para a saída de passageiros e ingresso de outros. No terceiro apito, reinicia a viagem. A pesada máquina, puxando os vagões, vai se afastando; aumenta a velocidade e até desaparecer logo depois, possivelmente além de uma curva, escapando dos olhares daqueles que permaneceram na estação. E assim acontecia com aquelas meninas, que suponho bem sorridentes, extravasando alegria.

Evidentemente, ressaltamos mais uma vez que estamos diante uma história real, verdadeira, tendo como protagonistas algumas jovens do interior. Os encontros delas se davam durante a semana, sempre no mesmo horário, porque a motivação era ver o trem passar. Cá para nós, somente ver o trem passar? Não havia outra razão que as movia? Tenho para mim que algo especial de sublimidade existia, sim. Quem sabe um esperado aceno de mãos de um jovem, da janela do trem, exprimindo um gesto de atenção e carinho, formando a imagem de um príncipe encantado, ainda que por alguns minutos, e que, logo em seguida, foi embora no trem, desaparecendo para sempre.

Muitas vezes deixamos de valorizar tantas coisas boas, saudáveis, que fazem bem, porque as consideramos simples e sem maior importância. Queremos sempre mais, numa busca incessante de novidades. A vida moderna é marcada por uma competição desenfreada. O que é bom e o que nos agrada hoje, amanhã já não será tanto assim, podendo converter-se num transtorno compulsivo.

Ah! Como seria bom e agradável se tivéssemos um trem passando perto de nossa casa!
Uma das meninas referidas vem a ser a irmã Telma Arêias Quelhas, que chegou à nossa Igreja em 1961, com apenas 18 anos, e permanece até hoje, bem querida de todos.

Author: adm0152

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