Godspell?

Por Vitor Ferreira

Foi lançado no ano de 2018, em terras norte-americanas, mais precisamente no dia 28 de março (no Brasil, em maio do mesmo ano), o filme sobre a vida do Apóstolo Paulo, “Paulo, O Apóstolo de Cristo”, sucesso de bilheteria para um filme com a temática em questão, esta cada vez mais recorrentemente abordada pelos agentes da sétima arte.

A maneira como se concebe o que seria uma correta abordagem acerca da vida dos personagens bíblicos, em outros meios de comunicação ou manifestação artística, costuma provocar reações muitas vezes de difícil consenso entre aqueles que se utilizam da Bíblia Sagrada, como, entre outras coisas, fonte de inspiração pessoal, haja vista tratar-se o texto paradigma justamente de um escrito santo, diretamente proveniente do coração do próprio Deus, segundo a nossa fé.

Mas, assim como (muito bem guardadas as devidas proporções!) os escritos dos apóstolos representam em alguma medida, a ação do homem em relação àquilo que se acredita tratar-se da cooperação com Deus para a realização do Seu Reino, tanto podem também realizar os homens e mulheres dos nossos dias no sentido de tal cooperação (sabidamente, não porque assim se necessite, mas porque assim nos é oportunizado).

Superadas as considerações acima, tem-se que, cada vez mais perceptivelmente, parece haver uma maior provocação à curiosidade de muitos acerca da dogmática e do que talvez se possa considerar doutrina “evangélica”, independente de pertencerem ou não esses muitos ao nicho gospel, em que tão insistentemente buscam nos inserir os responsáveis pela manipulação (perversa ou não) desse mercado hoje tão lucrativo.

A tal respeito, aliás, percebe-se também uma progressiva iniciativa em direção ao investimento no setor, que tem absorvido as mais distintas formas de condução dos trabalhos em prol (ou não) do cristianismo, seja através do cinema (à guisa do exemplo já mencionado), da música e da literatura (já tradicionais, à essa altura), bem como por meio de atividades desenvolvidas por coaches, profissionais dedicados a fazer com o que o indivíduo seja capaz de “acessar o melhor de sua essência, despertando-o para a sua melhor versão” (sem pejorativo no uso das aspas; apenas para registrar que não reflete necessariamente o pensamento de quem escreve o presente texto).

A digressão posta revela, no mínimo, a existência de dois desdobramentos decorrentes da própria constituição do cenário em questão, aos quais pode-se (a depender do estado de espírito de cada um) atribuir valores positivos ou negativos, a saber: 1) um maior refinamento com a produção da mercadoria a ser comercializada e; 2) a exploração, para o bem ou para o mal, do conteúdo bíblico com fins eminentemente financeiros, em detrimento de tantos outros certamente maiores e mais importantes.

Gravadoras, redes de televisão, produtoras de cinema, todas têm se empenhado para entregar aos seus consumidores um material cada vez mais bem-acabado, promovido premiações para os envolvidos nos projetos e produzido algo que, talvez, em nenhum outro momento da história se tenha feito, tamanho investimento e retorno financeiro.

No Brasil, a corporação que melhor parece representar o momento é a Rede Record que, ao longo do tempo, tem se esforçado em empreender e publicamente protagonizar um dos mais diretos embates entre as “iniciativas” gospel e secular, confrontando e contratando para os seus quadros profissionais da sua mais óbvia concorrente.

Sobre o filme, certo é que o seu conteúdo tem muito a nos ensinar. Muito além do relato puramente abordado, a respeito do qual já possuímos vasta informação – proveniente, inclusive, de fonte de valor inquestionável.

O cuidado com a película nos remete ao refinamento típico dos épicos clássicos, cenário e figurino extremamente convincentes, texto fluido e atuações dignas. Bom gosto à altura de “A Paixão de Cristo” (resguardada a total ausência de pretensão em se proceder à uma análise técnico-cinematográfica sobre o tema).

E, a tal respeito, cabe destacar que não há qualquer censura (da parte de quem vos escreve) em desejar a manutenção de uma vida alinhada com o coração de Deus e o consumo com qualidade, desde que prudente e consciente.

Mais que isso: não há respostas para os questionamentos postos. No presente texto, convida-se à reflexão.

E, para ser mais explícito ainda, a reflexão a que se alude sequer diz respeito ao que possivelmente se passa nos bastidores do mercado gospel ou no coração dos empresários que o alimentam e movimentam, mas única e exclusivamente em relação ao interior de cada um de nós, se temos de fato procedido em tudo quanto nos concerne de acordo com o aprendizado que nos tem a nossa fé oportunizado.

Author: adm0152

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