A Menina Que Viu o Saci Pererê

Por Joel Pereira

O folclore brasileiro é riquíssimo de tradições, crenças e lendas, que vêm marcando o nosso povo ao longo de sua história.

Algumas lendas, que se tornaram bem conhecidas e famosas, foram as histórias do saci pererê, da mula sem cabeça e do lobisomem. Na minha infância, tais personagens eram bem falados, criando na mente de muitas crianças um verdadeiro terror. Comentava-se que esses seres enigmáticos apareciam normalmente às sextas-feiras, sempre depois das oito horas da noite. Eu tinha alguns colegas que não saiam de casa, nesse dia e horário, de forma alguma. Minha mãe, como crente e bem conhecedora da Bíblia, afastou de mim, por completo, tal crendice.

Em tempos modernos, praticamente nada mais se comenta sobre a lenda dos personagens citados. Por isso, as crianças de hoje nada sabem a seu respeito, ignorando-os totalmente.

Voltando ao título que encima esta matéria, houve uma menina que viu o saci pererê. E daí? Pelo que se comentava no passado, havia algumas espécies de saci, com maior destaque para aquele chamado de saci pererê. Tratava-se de um neguinho, de uma perna só, de olhos avermelhados. De sua fina e comprida língua saiam labaredas de fogo. Usava um gorro vermelho. Era muito travesso. Gostava de amarrar o rabo dos animais e de pegar as moças.

O saci pererê também se movimentava com muita rapidez. Como um redemoinho, deslocava-se de onde estava para um outro lugar, refugiando-se nas florestas. Quando assim procedia, emitia um fino e bem alto assovio.

O escritor Monteiro Lobato, figura de escol em nossa literatura, descreve em uma de suas obras uma fascinante história. O personagem criado, dentro da mata virgem do Sítio do Picapau Amarelo, depara-se com um saci, o qual passa a contar os segredos da floresta.

O episódio literário citado consta de uma obra, que integra as Obras Completas de Monteiro Lobato, em 43 volumes, das quais tenho a primeira série, em 17 volumes, com destaque para os títulos Urupês, Idéias de Jeca Tatu e o Escândalo do Petróleo e Ferro, de 1961.

A Menina, que viu o saci pererê, contava, na ocasião, cerca de 11 anos. Morava com os pais, uma irmã de idade menor e sua avó, num lugarejo do interior. Era um sítio, com muitas plantações, enriquecido com fruteiras de diferentes espécies, como mangueiras, jabuticabeiras, pessegueiros, goiabeiras. A casa era antiga, com vários cômodos bem espaçosos, com pilão, moinho e demais utensílios necessários à rotina de uma casa da roça.

Do lado de fora, um vasto terreiro de secar café e também um paiol. Na parte inferior da casa, o costumeiro porão.
Não muito distante da casa, era costume o plantio de um pequeno milharal, para servir à família quando alguém quisesse saborear um milho assado, ou cozido. Mais distante, a maior plantação de feijão, arroz, milho, aipim, de onde se retiravam os meios para suprimento da família.

Pois bem, certo dia, ao entardecer, a menina sai de casa para pegar um animal. Tinha que passar por um milharal. No caminho, em determinado momento, eis o espanto: um saci pererê, aquele que aterroriza a todos. De imediato, nervosa e trêmula, sem outra opção, retorna, correndo, adentrando a casa. Depara-se com a sua avó. Ofegante e quase sem voz, começa a dizer: – Vovó, eu vi um saci pererê. A avó, com tranquilidade e bem serena, começa a dizer: Saci pererê não existe. Vamos lá, para confirmar. Carinhosamente, pega a menina pelo braço, e as duas seguem em direção ao lugar onde o fantasma teria sido visto.

A paciente e amorosa avó com a netinha querida adentram o milharal e continuam a caminhar. Em certo momento, ainda com muito espanto, a menina sinaliza para o ponto crucial. Vão-se aproximando e chegando mais perto. Nessa hora, a menina, ainda bem nervosa, diz: – Foi ali. Eis conhecido o mistério! Eram algumas espigas de milho juntas uma das outras, desabrochando, em forma de bonecas, com longos fios avermelhados inclinados, dando a ilusão de cabelos.

Aí está o resultado de uma crendice, que foi desbaratada. O fato relatado aconteceu, é real. A menina, então com cerca de 11 anos, é a minha menina de hoje, com um pouco mais de idade: Eolina.


Imagem: https://pt.wikipedia.org / Torrubirubi

Author: adm0152

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