A Ignorância é Saudável

Por Joel Pereira

Há bastante tempo escrevi uma matéria com o título “A Ignorância Escraviza”, que foi publicada no Informativo. A expressão ignorância com o sentido de ausência de conhecimento, ou estado de quem ignora ou desconhece alguma coisa.

Na oportunidade passada, procurei mostrar que muitas pessoas não desenvolveram a capacidade mental no campo intelectual, e, por isso, tornam-se reféns ou submissas de outras, lembrando que convivemos com um universo de patriotas – milhões, infelizmente – que ainda não sabem ler e nem escrever, à margem dos livros e dos meios de comunicação.

Dizer agora que a ignorância é saudável pode dar uma impressão contraditória, de proposições adversas. Na ocasião em que me debrucei sobre o assunto, construí assertivas bem claras mostrando que a falta de conhecimento normalmente leva os indivíduos a um estado de dependência, de submissão, de aceitação sega em relação ao que é proclamado a sua volta como verdade incontroversa. Logo, é uma vereda sombria que há de ser iluminada a fim de que aos olhos de muitos se descortine a oportunidade do saber.   

A ideia que me anima e conduz a dizer agora que a ignorância é saudável, tem outro viés, uma lógica transversa.

O homem da lavoura, aquele que cultiva a terra para a sobrevivência, normalmente é uma pessoa iletrada, à margem dos livros, e ainda são tantos por esse Brasil afora, lamentavelmente! Meus pais vieram de lá; plantavam para comer, o que se deu igualmente com o meu sogro, ao tempo em que residia com a família no interior de Itaocara, numa época em que nem havia luz elétrica na região e o único meio de transporte era o trem.

Trabalhei por cerca de nove anos na Região dos Lagos, na Comarca de São Pedro da Aldeia. Era juiz único para tudo. Nos primeiros anos, atuei até como juiz trabalhista. Em várias oportunidades, estive em serviço cumulativo na Comarca de Araruama. Enorme era o volume de trabalho, com muito desgaste físico e mental.

Naquela cidade, muitos viviam da pesca; pessoas pobres, respeitosas e bem humildes. Ali, tive a oportunidade de conhecer vários pescadores. No vai e vem da minha faina, houve dias em que a cabeça fervilhava bastante, em razão de sérios e sucessivos problemas para solucionar. Em várias ocasiões, deixei o Fórum com todo o  frenesi existente e rumava para a lagoa, que, por sinal, ficava bem perto. Era o escape à procura de um refrigério.

Quando isso acontecia, sempre procurava me aproximar de um barco. Perto dele, normalmente estava um pescador consertando ou arrumando a sua rede em meio a uma invejável calmaria, indiferente aos problemas que a tantos atormentam e afligem.  Eu era logo identificado como o juiz, naturalmente por ser o único na cidade. Em geral, aquele modesto obreiro, com o seu cigarrinho na boca, me recebia com um largo sorriso. Constrangido, estendia uma das calejadas mãos para cumprimentar-me, e logo perguntava: – Doutor, o senhor aqui? Dissimulava, é claro, a finalidade da minha presença naquele local em momento inesperado.

Naqueles encontros de surpresa, eu fazia algumas perguntas sobre o mar, pescaria, e assim por diante. Ficava ali pouco tempo, mas o bastante para atenuar o meu estresse. Podia perceber, sem dificuldade, que a vida daquele modesto pescador, o mundo em que se inseria, era infinitamente menor do que o meu. Alheio a tantas coisas que agitavam o cenário nacional, levando tantos a noites maldormidas e a tomarem medicamentos com tarja preta, curtia ele os seus dias, de forma tão simples e produtiva, tendo apenas a preocupação de recolher do mar, em suas redes, alguns quilos de peixe, o suficiente para abastecer a reduzida dispensa de casa.

Minha saudosa mãe me contava que, no seu tempo, na distante cidade capixaba de Mimoso do Sul, acordava-se bem cedo, no máximo seis horas. Tomava-se café, normalmente com broa de milho, aipim cozido ou batata doce. A seguir, partia-se para o duro trabalho da agricultura. O almoço era por volta de nove horas, no próprio local de serviço. A janta era cerca de quatro da tarde. Mais ou menos oito e meia a nove horas da noite, todo mundo ia dormir. Essa era a rotina das pessoas naqueles idos históricos. Sem rádio, televisão, ou qualquer mídia escrita, ficavam todos alheios a tudo que se passava pelos quatro cantos da terra.

Nunca ouvi minha mãe dizer que alguém tomasse remédio de tarja preta naqueles remotos tempos, bem diferente dos dias atuais. Com os exemplos acima, parece-me que a ignorância se transforma em valioso fator determinante para assegurar às pessoas a terem uma mente mais saudável. Diante do exposto, forçoso concluir que a ignorância também tem seu viés benfazejo.

Author: adm0152

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